O poeta e sua flor

Hoje é o aniversário da minha esposa. Fiquei pensando no que escrever em homenagem a ela. Resolvi não escrever nada que indique o quanto a amo. Sim, porque O Carlos Drummond de Andrade me ensinou em “As Sem Razões do Amor” que “amor é estado de graça e com amor não se paga”.
Ou seja, amar uma pessoa tão incrível quanto a Carol não é nenhum presente – é apenas um movimento natural, quase sem motivo, um sentimento puro que brota naturalmente simplesmente por ela ser quem é. Assim como a flor gardênia exala seu perfume sem saber que desperta sonhos de ternura no coração do mais sensível dos poetas.
Sim, o mais sensível, pois muitos podem sentir seu perfume – mas só um inebriou-se a ponto de transformar em realidade a aventura de cuidar da flor com dedicação e carinho por toda a vida, garantindo assim que mesmo colhida do mais belo dos jardins, a flor continue sempre exalando seu perfume por aí– afinal, o poeta não foi egoísta.
Pois ele poderia ter guardado a flor de gardênia em seu jardim particular, quem sabe numa redoma de vidro, qual a Fera do filme “A Bela e a Fera”, para que ninguém mais sentisse esse perfume e não houvesse outro poeta no mundo a lhe desafiar. Não foi assim que ele entendeu sua missão. Seu propósito de vida era fazer a flor brilhar (mesmo sabendo que a flor de todo jeito iria brilhar – queria ser parte desse sucesso).

E tantas fez para que isso acontecesse. E cuidou com carinho, regou com amor, e fez de tudo para esconder a soberba quando ouvia toda a gente dizer “Oh, mas que bela flor”, “Oh, como brilha essa gardênia”, “oh, que perfume intenso”. Então que este poeta amava sua flor, mas fazia disso um segredo, pois amar aquela flor era tão necessário e tão óbvio que que dizer-lhe simplesmente “eu te amo” não seria remuneração por sua ternura. Amá-la era estado de graça. E assim, por estas razões, também resolvi não falar do meu amor pela Carol. Contentemo-nos com a jornada mágica de um poeta e sua flor.

Feliz Aniversário Maria Carolina De Almeida Marcondes

Jantar Japones 2o uso Canon 018

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O modelo de carta

O rapaz decidiu mandar uma bonita carta de próprio punho pelo correio para a namorada… afinal, ela era muito romântica e ia adorar a surpresa à moda antiga – estavam comemorando um ano juntos e ele queria enviar algo que a fizesse se sentir especial. Mas… que pena, a inspiração não vinha. Começou a escrever vários textos, mas abandonou todos, nada lhe parecia bom. Até que um amigo lhe deu uma ideia:

“rapaz, nesses tempos de internet não precisa ter inspiração nenhuma não... vai lá no “blogodorium” que tem várias sugestões pra você, é só copiar

O rapaz então visitou o blog indicado pelo amigo e quase não acreditou – havia diversos modelos prontinhos para serem enviados. Escolheu o que mais lhe agradou, que começava assim:

“Eu te amo do jeito que você é. Pela sua beleza, tanto interior, quanto exterior, pelo seu carinho, sua atenção, seu respeito, sua sinceridade e seu companheirismo. Quero estar sempre ao teu lado…”

Copiou cada vírgula, fechou o envelope, foi até o correio e enviou a carta. Ficou esperando que ela recebesse ansiosamente…

Até que, passados dois dias, ela ligou para ele aos prantos: “está tudo terminado entre nós”

“Mas o que foi que houve?” perguntou assustado

ela: “a carta que você enviou… é idêntica à que um ex namorado meu me mandou uns dois anos atrás. De onde você copiou?”

blogodorium

“Você precisa ler mais!”

“Você precisa ler mais!” – a voz grave do meu pai quando me dava uma ordem sempre me deixava de prontidão. Não tinha como desobedecer. Nem tinha como desrespeitar. Era uma bronca, mas hoje entendo que meu pai estava mesmo preocupado comigo.

Eu tinha treze anos. Minhas notas na escola não eram as melhores. E ele ficava desesperado me vendo perder tempo assistindo “muita televisão” sem me dedicar a me tornar uma pessoa mais inteligente, mais culta, mais sábia.

É claro que, para ele, a solução estava nos livros. Ele era muito culto e vinha de uma família de pessoas muito cultas. Meu avô e minha avó, seus pais, tinham em casa milhares de livros em diversas estantes. Eram todos catalogados e fichados (ou seja, lidos). Na minha casa, quando eu era criança, havia uma centena de livros. Meu pai e minha mãe já tinham lido todos. E eu não abria nenhum.

Meu pai tinha certeza de que meu futuro iria mudar nas páginas dos melhores autores. Ele fazia de tudo para estimular meu gosto pela leitura. Por exemplo, eu só poderia ganhar algum presente em datas especiais, como no meu aniversário ou Natal. Mas havia um tipo de presente que meu pai me daria a qualquer tempo, era só pedir: livros.

Havia também mais uma estratégia para me introduzir ao mundo das letras. Diante de meus boletins com notas baixas, meu pai me proibia de ter tudo aquilo que ele chamava de “regalias” – as coisas que me distraiam para não estudar: “Não pode ver televisão, não pode jogar videogame, não pode usar o computador”. Para arrumar alguma coisa pra fazer, no plano do meu pai, eu só podia fazer uma coisa: “ler livros!”. “E só livros chatos”, acrescentou meu irmão certa vez, sempre irônico. Tomou uma bronca porque a coisa era séria rsrsrs

Foi então que, por esses motivos todos, eu comecei a pensar sobre o que eu gostava de ler. Me lembrei da série “Para Gostar de Ler” da Editora Ática, que era leitura obrigatória no colégio, e percebi que isso pra mim não era obrigação – eu gostava de contos e crônicas. Lembrei que, no colégio, eu gostava de amenizar o tédio das aulas lendo Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Carlos Drummond de Andrade disfarçadamente para a professora não ver. Foi então que tive a ideia de pedir para o meu pai um livro de um daqueles autores. Meu pai, muito feliz, me deu de presente um exemplar de um livro do Fernando Sabino. Foi então que um mundo se abriu para mim.

Em pouco tempo eu já tinha uma coleção de livros do Fernando Sabino, que eu devorava com tanta avidez que até hoje, se eu abrir uma crônica dele, eu ainda me lembro do final. O Fernando Sabino foi uma influência tão forte na minha formação que até hoje eu penso nas coisas que ele escreveu e sigo a filosofia dele quando escrevo meus textos (por exemplo, meus textos são realidade e ficção ao mesmo tempo – sempre recebem uma pitada daquilo que eu gostaria que tivesse ocorrido).

Eu já tinha uns 15 anos e já era grande fã do Fernando Sabino quando meu pai, cheio de orgulho, me levou para conhecer o próprio. Era uma noite de autógrafos, compramos um livro, o meu autor predileto o autografou e ainda me deu um pequeno livro de cortesia, também autografado. O escritor disse ao meu pai que ficava muito feliz de ver um garoto sendo fã dos contos e das crônicas. Afinal, os jovens da época já estavam abandonando o gosto pela leitura.

O tempo passou, eu virei fã do Luiz Fernando Veríssimo, do Carlos Drummond de Andrade, do Rubem Braga (nunca gostei muito do Paulo Mendes Campos, que também era da turma – mas ele tem um texto chamado “O Amor Acaba” que é uma obra prima), do Machado de Assis e muitos outros. Meu estilo de literatura preferido continua sendo “contos e crônicas”.

Então que, com essa forte influência, aos 16 anos eu comecei a me destacar em redação no colégio, descobri um “dom” que eu não tinha, mas que estava surgindo – mais tarde eu decidi que seria jornalista e passei a ganhar a vida com isso. Então que a cada vez que eu atuei como repórter ou editor, eu estava usando um talento que me foi ensinado, que não aprendi sozinho.

Até hoje, a cada texto meu está escondida a paixão pelos relatos das coisas simples do dia a dia com uma pequena graça, um pequeno toque do inusitado. A cada palavra minha, está escondida sempre a influência dos autores que li, mas principalmente a influência do meu pai, que tanto fez por mim. Se hoje você está lendo estas palavras, caro leitor, e acredita que tenho habilidade para escrever – é tudo por causa da frase que deu início a esse texto: “Você precisa ler mais!”. Deu no que deu.

“Talento é 1% inspiração e 99% transpiração”, disse Thomas Edison

Foi um assombro

Tinha ciúme até da própria sombra. Um dia, enquanto esperava para atravessar uma rua, viu sua silhueta desenhada no chão de rosto colado à silhueta do rapaz que estava ao lado. Sacou rapidamente o celular, acendeu a lanterna e acabou com a sombra, com um facho de luz bem na cabeça. Foi um assombro. Aquela mancha o perseguiria para o resto de sua vida.

True story

Nostalgia 2

A música “João e Maria” do Chico Buarque me traz grandes recordações do passado. Ela foi lançada em 1977 segundo a Wikipédia, mas eu devia ser mais velho para ter as lembranças que tenho. Não sei quantos anos tinha quando se deu a história abaixo.

Meus pais tinham uma Brasília branca, e um dia eu estava com minha mãe andando no carro quando começou a tocar “João e Maria” no rádio.

Minha mãe se empolgou com a música e começou a cantar junto. Eu ainda não sabia definir, mas aquele foi um momento de um lirismo que eu jamais tinha experimentado. A suavidade da música se misturava à animação de minha mãe, e aquele momento ficou indelevelmente gravado em meu coração.

Os anos se passaram e eu cheguei aos 19 anos. Eu não sabia ainda que já era um grande fã do Chico Buarque. Até que eu fui para os Estados Unidos passar um mês e meio estudando inglês. No aeroporto comprei uma fita cassete (fita cassete!) do álbum “Perfil” do Chico Buarque. Fui ouvindo aquelas músicas durante todo o voo.

De repente tudo começou a fazer sentido. As músicas contavam a história de um casal inusitado, um sujeito que zomba do amor e uma porta-estandarte que não sabe mais dançar, também falavam sobre um samba popular que iria passar na avenida numa grande festa de carnaval, tinha uma mulher que todo dia fazia tudo sempre igual com um beijo de boca de hortelã – aquilo tudo era genial

Só quando eu cheguei nos Estados Unidos que eu me dei conta. Viajar para o exterior acendeu em mim uma certa “saudade de casa”. E eu tinha dado um jeito de levar comigo uma recordação do Brasil na bagagem. Ouvir Chico Buarque era minha seção nostalgia. Amenizava um pouco a saudade de casa. Sorte que a fita não trazia a canção “João e Maria”. Ou teria tentado voltar antes pra casa.

Nostalgia 1

Eu tinha uns 8 anos de idade quando ouvia o disco que tem esta música abaixo(o disco se chama “Flagra”). Eu não sabia ainda dizer porquê, mas eu achava “Brasil com S” uma coisa tão bela. Eu ainda não fazia ideia de que o canto “sussurrado” dos dois era parte de um movimento gigantesco, um mundo do qual eu começava a fazer parte. “Isso é bossa nova, isso é muito natural” eu fui aprender anos mais tarde.

Eu fui grande fã de Rita Lee na tenra idade, o que era curioso por causa da grande sensualidade das letras, que eu não captava. Afinal, o que acontecia “no escurinho do cinema, chupando drops de anis, longe de qualquer problema, perto de um final feliz?” Pior ainda era entender porque “mulher é bicho esquisito e todo mês sangra”?

Que bom que era tudo muito sutil, muito leve, muito suave. Tão diferente das músicas que hoje em dia a gente fica preocupado das crianças ouvirem. “O pai te ama” dos tempos atuais é o máximo da sutileza da versão “light” de Deu Onda.

A Rita Lee queria voltar invisível pra dentro da barriga da mamãe. Eu quero voltar a 1983, com meus oito anos, época que a bossa nova e a MPB tocavam no rádio. Bons tempos. #nostalgia

 

Encontro

Eu estava no Shopping Dom Pedro, aqui de Campinas, e fui comer alguma coisa no Taco Bell. Pedi um combo de Crunchwrap Supreme com batatas e Coca-Cola. Dentro da loja não havia lugar para me sentar, então fui até o salão da praça de alimentação.

Peguei uma mesinha, sentei e comecei a devorar o meu lanche. Quando eu estava na terceira mordida, um homem que eu nunca tinha visto antes se aproximou. Era alto, calvo, usava uma barba. Ele fixou o olhar em mim, veio direto até minha mesa e perguntou à queima roupa:

– Você não é o José Eduardo Marcondes?

Ainda mastigando, com os olhos arregalados, assenti com a cabeça. Ele então prosseguiu:

– Rapaz, eu adoro suas postagens no Facebook. Você está ficando cada dia melhor. Sabe, o Fernando Sabino disse numa crônica que o escritor é um cara que passa a vida toda conversando sozinho – mas o bom mesmo é que a conversa vai ficando cada vez melhor à medida que o tempo passa…

Tomei um susto – eu tenho esse texto do Sabino publicado no meu blog! O cara continuou:

– Puxa, no dia internacional das mulheres, anteontem, você fez um texto em homenagem às bravas mulheres da sua vida – e aquilo foi lindo, cara… gostei da sensibilidade!

A essa altura eu já não conseguia mais comer meu lanche, embora estivesse sem reação e mudo. Nada faria meu inusitado seguidor parar de falar:

– E aquele dia que você, despretensiosamente, escreveu um texto sobre levar uma criança de dois anos e meio ao banheiro? Nossa, aquele texto foi parar no site do Programa Papo de Mãe, hein? Saiu na capa do portal do Estadão… foi um marco da sua vida de cronista amador. Mas bem que você deveria publicar um livro, fica a dica

Eu não respondia nada, estava muito espantado – e minha cabeça se enchia de perguntas: Quem era aquele sujeito? Como ele sabia tanto sobre mim? Como me encontrou naquele shopping?

Ao invés de ficar embevecido por encontrar um fã, comecei a ficar meio desconfiado… afinal, nem minha própria mãe observa tanto minhas postagens… seria um stalker?

mas ele prosseguia falando sobre mim com muito entusiasmo:

– Olha, eu observei bem e sei que você estabeleceu uma verdadeira linha editorial no seu Facebook. E está dando muito certo. As pessoas deveriam escrever coisas leves no Facebook. É o que eu acho! Você sempre diz que seu humor é leve, mais na linha do Fernando Sabino, mas acho que você tá mais pra Rubem Braga – quem sabe até um dia chegue a um Luiz Fernando Veríssimo…

Dessa vez eu o interrompi: “imagine, eu não tenho a pretensão de…”

Mas o homem me interrompeu: “Dia desses você até fez uma brincadeira dizendo que estava postando uma poesia para evitar entrar em assuntos polêmicos. Nos tempos modernos tem tanta gente querendo entrar nas polêmicas e você resolveu pular fora delas. É preciso muita determinação pra conseguir isso nos dias de hoje.

Pensei comigo mesmo: “caraca, o cara observou até os detalhes mais minuciosos”. Não aguentando mais de curiosidade, perguntei ao sujeito: “Como é o seu nome?”

Ele respondeu: “Meu nome é Paulo Giardino”

Nessa hora me acendeu uma luz… o nome dele não me era estranho, mas também… discretamente puxei o celular e comecei a procurar por Paulo Giardino na minha lista de amigos do Facebook… afinal, o meu perfil é bloqueado para quem não é meu amigo… ele tinha que aparecer em algum lugar. Mas eu não o encontrava em canto algum. Enquanto eu buscava uma resposta, Paulo continuou com suas frases cheias de entusiasmo:

– “Poxa, Edu, você é um cara que está evoluindo muito – se lembra quando você trabalhou de repórter naquela emissora de televisão que uma editora falou pra você tomar cuidado com as postagens que fazia no Facebook? Poxa, cara, se você tivesse essa linha editorial de agora já naquela época, jamais teria passado por isso”

Quase caí pra trás – eu nunca postei essa história em canto nenhum, esse cara não poderia ser apenas um seguidor do Facebook. Agora ele estava falando um detalhe que eu só contei pra… só contei pra… pra… Já com a voz trêmula eu lancei: “Mas, afinal, quem é você?”

O sujeito riu e, de repente, tirou uma máscara que estava usando. Foi só então que eu o reconheci: era Saulo Jardim, meu psicólogo.

Nos abraçamos imediatamente e choramos juntos. Foi lindo.

True Story