Eduardo Marcondes

Jornalista

O mito do amor romântico

O amor romântico é o maior sistema energético dentro da psique ocidental. Na nossa cultura, é — mais ainda que a própria religião — a arena em que homens e mulheres tentam conseguir transcendência, plenitude, êxtase e sentido para a vida.

Como fenómeno de massa, o amor romântico é pe­culiar ao Ocidente. Estamos tão acostumados a convi­ver com as crenças e as suposições do amor romântico, que o consideramos como a única forma de “amor” que pode gerar casamento e relacionamentos verdadeiros. Achamos que o amor romântico é o único “verdadeiro amor”. Mas existem muitas outras coisas a este respei­to que podemos aprender do Oriente. Nas culturas orientais, como a da índia ou a do Japão, constatamos que os casais se amam com muita cordialidade, muitas vezes com uma devoção e uma estabilidade que desco­nhecemos.

Mas o amor deles não é o “amor romântico” como nós o conhecemos. Eles não impõem aos seus relacionamentos os mesmos ideais que impomos aos nossos,  nem fazem exigências impossíveis ou alimentam expec­tativas como nós fazemos.

O amor romântico não é apenas uma forma de “amor”, mas é todo um conjunto psicológico — uma combinação de ideais, crenças, atitudes e expectativas. Essas ideias, frequentemente contraditórias, coexistem no nosso inconsciente e, sem que percebamos, dominam nossos comportamentos e reações. Inconscientemente, predeterminamos como deve ser um relacionamento com outra pessoa, o que devemos sentir e mesmo o que devemos “lucrar com isso”.

 

O amor romântico não significa apenas amar alguém; significa “estar apaixonado”. Este é um fenó­meno psicológico muito peculiar. Quando estamos “apaixonados”, acreditamos ter encontrado o verdadei­ro sentido da vida revelado num outro ser humano. Sentimos que finalmente nos completamos, que encon­tramos as partes que nos faltavam. A vida, de repente, parece ter atingido uma plenitude, uma vibração sobre-humana, que nos ergue acima do plano comum da exis­tência. Para nós, estes são os sinais seguros do “amor verdadeiro”. Este conjunto psicológico inclui uma exi­gência inconsciente de que o nosso amante ou cônjuge nos alimente continuamente com esta sensação de êxta­se e de emoção intensa.

Com a típica presunção ocidental de estarmos sem­pre com a razão, achamos que o nosso conceito de “amor”, o amor romântico, deva ser o melhor. Presu­mimos que, comparado a este, qualquer outro tipo de amor entre homens e mulheres seria frio e insignifican­te. Mas se nós, ocidentais, formos realistas, teremos de admitir que o nosso enfoque do amor romântico não está funcionando bem.

Apesar do êxtase que sentimos quando estamos “apaixonados”, passamos boa parte do nosso tempo com uma profunda sensação de solidão, alienação e frus­tração causada pela nossa incapacidade de construir re­lacionamentos afetuosos, baseados em compromissos. Culpamos geralmente os outros por nos terem falhado; não nos ocorre que talvez sejamos nós que precisemos modificar nossas próprias atitudes inconscientes — as expectativas que alimentamos e as exigências que im­pomos aos nossos relacionamentos e às demais pessoas.

 

Esta é a grande ferida na psicologia ocidental, é o problema psicológico básico da nossa cultura. Jung disse que se descobrimos a ferida psíquica num indiví­duo ou num povo, aí descobrimos também o caminho para a conscientização, pois é no processo de cura das nossas feridas psíquicas que acabamos por nos conhecer a nós mesmos. O amor romântico, se realmente tentar­mos compreendê-lo, pode tornar-se tal caminho para a conscientização. Se os ocidentais se libertarem da servi dão maquinal às suas presunções e expectativas incons­cientes, não apenas atingirão uma nova consciência em seus relacionamentos como também uma nova consciên­cia de si próprios.

O amor romântico se tem manifestado em muitas culturas no desenrolar da história. Nós o encontramos na literatura da Grécia antiga, no Império Romano, na antiga Pérsia e no Japão feudal, mas a nossa sociedade ocidental moderna é a única cultura da história que teve a experiência do amor romântico como um fenómeno de massa. Somos a única sociedade a cultivar o ideal do “amor romântico” e a fazer do romance a base de casa­mentos e relacionamentos amorosos.

O ideal do amor romântico irrompeu na socieda­de ocidental durante a Idade Média, surgindo pela pri­meira vez na literatura no mito de T ris tão e I solda, de­pois nos poemas e nas canções de amor dos trovadores. Era conhecido como “amor cortês” e tinha por mode­lo o intrépido cavaleiro que honrava uma bela dama e fazia dela a sua inspiração, o símbolo de toda a beleza e perfeição, o ideal que o incentivava a ser nobre, espi­ritualizado, refinado e voltado para assuntos “eleva­dos”. Na nossa época introduzimos o amor cortês nos casamentos e nos relacionamentos sexuais, mas ainda mantemos a crença medieval de que o amor verdadeiro tem de ser a adoração extática de um homem ou de uma mulher que representa para nós a imagem da perfeição.

Jung nos mostrou que quando um fenómeno psi­cológico marcante acontece na vida de um indivíduo, isto significa que um tremendo potencial inconsciente está emergindo, prestes a manifestar-se ao nível da consciência. O mesmo é válido para as coletividades. Num determinado ponto da história de um povo, uma nova possibilidade surge do inconsciente coletivo; é uma nova ideia, uma nova crença, um novo valor ou, ainda, uma nova maneira de encarar o universo. Isto representa um bem em potencial, se puder ser integra­do ao consciente, mas a princípio é assustador e até mesmo destrutivo.

O amor romântico é um desses fenómenos psico­lógicos realmente arrasadores que surgiram na história dos povos ocidentais. Foi algo que esmagou nossa psi­que coletiva e alterou permanentemente nossa visão do mundo. Ainda não aprendemos a lidar coletivamente com o tremendo poder do amor romântico. Frequente­mente nós o transformamos em tragédia e alienação e não em relacionamentos humanos duradouros. Acredi­to, porém, que se homens e mulheres compreenderem os mecanismos psicológicos que atuam por trás do amor romântico e aprenderem a lidar com eles conscientemente, terão nas mãos a chave para novas possibilida­des de relacionamento, tanto com os outros como con­sigo mesmos.

Nosso veículo para explorar o amor romântico é o mito de Tristão e Isolda. Trata-se de um dos mais comoventes, belos e trágicos de todos os grandes rela­tos épicos. Foi a primeira história na literatura ociden­tal a lidar com o amor romântico, e é a fonte da qual se originou toda a nossa literatura romântica, desde. Romeu e Julieta até a história de amor em cartaz nos cinemas do bairro. Aplicando os princípios da psicolo­gia jungiana, interpretaremos os símbolos do mito e co­nheceremos por ele as origens, a natureza e o significa­do do amor romântico.

O mito de Tristão e Isolda, como o de Parsifal, é um “mito masculino”. Ele retrata a vida do jovem Tristão que se transforma num herói nobre e altruísta, para depois se deparar com uma experiência arrasadora em sua vida: a paixão pela Rainha Isolda. É como uma simbólica peça de tapeçaria, que retrata em cores vivas o desenvolvimento da consciência individual do homem na luta para conquistar sua masculinidade, conscientizar-se do seu lado feminino e lidar com o amor e o re­lacionamento. É uma história que mostra um homem dividido entre a lealdade e as forças conflitantes que se agitam ferozmente na psique masculina, enquanto ele é consumido pelas alegrias, paixões e sofrimentos do romance.

Mesmo assim, existe neste mito muita coisa de grande valor e interesse para as mulheres, pois Tristão revela também o mecanismo universal do amor român­tico que é comum a homem e mulheres (ver “Uma observação para as mulheres”). Examinar esse mito, senti-lo como uma rica evocação do processo da psique ocidental, é algo que irá ajudar a mulher não apenas a compreender melhor o homem na sua vida, como tam­bém a ver mais claramente as forças misteriosas que atuam dentro dela mesma.

Tanto para o homem quanto para a mulher, en­xergar realisticamente o amor romântico é uma tarefa heróica. É algo que nos força a ver não apenas a beleza e o potencial contidos no amor romântico, como tam­bém as contradições e as ilusões que trazemos conosco ao nível inconsciente. Jornadas heróicas conduzem sem­pre a vales sombrios e a confrontos difíceis mas, ao perseverarmos, alcançaremos um novo estágio de conscientização.

De “We – A chave da psicologia do amor romântico” – Robert A. Johnson Ed. Mercuryo

abril 8, 2010 - Publicado por | Uncategorized | , , , , , ,

4 Comentários »

  1. Eu gostei muito e espero que sejam lidops por mais pessoas pois vale apena.É uma pena eu não ter encontrado mais explicação como essa.
    Queria deixar um beijo para todos

    Comentário por Damaris | maio 25, 2010 | Responder

  2. A trilogia toda. He She e WE.
    E estaremos bem encaminhados numa onda de consciência.
    FIníssima matéria que vai fundo nas camadas mais
    iteriores da psiquê.

    Além de lindo, poético, delicado.

    Comentário por carmen regina dias | junho 15, 2010 | Responder

  3. adorei fala de diversas maneiras que vemos o amo sei que vai ajudar muito no trabalho escolar…

    Comentário por odaisa | março 21, 2011 | Responder

  4. Me recomendaram este artigo,para que eu pudesse ter uma base mais sólida em um estudo que estou realizando. Adorei,por sinal. O amor não deve ser uma mazela. Os amantes,tão pouco, desesperados ,em busca de que tudo tenha “um final feliz”. Deve-se buscar a realização através de outras conquistas,individuais ou em parcerias. Creio que assim,as pessoas serão mais felizes,equilibrando os sentimentos.

    Comentário por Liza | maio 9, 2011 | Responder


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